Instituto Soka Amazônia: Por favor, se apresente e diga o nome do departamento da SGI do qual o senhor faz parte.
Nobuyuki Asai: Eu sou Nobuyuki Asai, trabalho no Departamento de Paz e Assuntos Globais da SGI e atuo nas áreas do desenvolvimento sustentável e assuntos humanitários.
Instituto Soka Amazônia: Como o senhor enxerga o papel da SGI de atuar em parceria com governos, ONGs e outras instituições para alcançar mudanças significativas no enfrentamento à crise climática?
Asai: Eu penso que um dos pontos fortes da SGI seria o de conscientizar as pessoas, pessoas comuns, e também de mobilizá-las para a realização de ações climáticas. Um dos exemplos, do Japão, no ano passado a divisão dos Jovens colaborou com a juventude de outras ONGs e organizaram um grande evento de jovens, com uma participação de aproximadamente 70mil pessoas. E o tema do evento foi o desarmamento nuclear e a crise climática. E nos preparativos do próprio evento, eles também realizaram uma pesquisa com os jovens. Foi um evento colaborativo com outras ONGs então, não apenas membros da Soka Gakkai, mas também muitos jovens em geral participaram no movimento. E o evento obteve sucesso em conscientizar as pessoas a respeito dos dois assuntos [desarmamento nuclear e crise climática].
Instituto Soka Amazônia: O senhor poderia compartilhar algum exemplo de projeto da SGI que tenha gerado impacto ambiental positivo em escala local ou global?
Asai: O que estamos fazendo na sede central da SGI é um projeto de reflorestamento no Oeste da África em colaboração com Organização Internacional Tropical Timber (ITTO), que é uma agência internacional. Esse projeto durou de 3 a 4 anos. O primeiro foi conduzido em Togo e o segundo no país vizinho Benin. Esse projeto não é apenas sobre reflorestamento, o empoderamento das mulheres é um ponto chave.
A ITTO encontrou uma boa parceria local. E nesse projeto ele treinam as mulheres da região para que elas obtenham renda através a agrofloresta. E elas também podem obter terrenos onde elas podem cultivar e promover o reflorestamento. Antes disso, nas localidades delas, essas mulheres não tinham o direito a propriedade ou meios de aquisição de renda. E através do projeto elas começaram a aprender como ganhar dinheiro e o status delas dentro da comunidade também se elevou. Então, esse projeto tem alcançado várias conquistas. Mas, claro, o ponto principal é o reflorestamento. Queremos fazer a diferença em relação a crise climática.
Instituto Soka Amazônia: Sabemos que o senhor ainda não visitou o Instituto Soka Amazônia, inclusive, lhe deixamos um convite para que possa, muito em breve, o conhecer. Mas, ciente da visão do Dr. Ikeda, poderia compartilhar como o Instituto Soka Amazônia se conecta com a proteção das florestas e a construção de um futuro sustentável, tema central da COP30?
Asai: Em meu entendimento, realmente avalio as atividades do Instituto Soka como [promotoras] de educação para crianças e jovens da região e também das comunidades indígenas.
Então, eu penso que o florestamento ou reflorestamento pode ser promovido por qualquer organização, se houver o recurso financeiro, mas ao mesmo tempo, Ikeda também enfatizou a importância de envolver as pessoas ou empoderar as pessoas. E penso que tal empoderamento é alcançado nos projetos do Instituto Soka. Então, realmente sinto que os projetos do Instituto Soka estão agregando valor aos projetos já existentes de florestamento e reflorestamento ao redor do mundo. E realmente sinto que esse projeto [do Instituto] deveria ser reconhecido por mais pessoas ao redor do mundo. E nosso departamento gostaria de realizar esforços nesse contexto.
O Instituto Soka Amazônia foi estabelecido há mais de 30 anos e agora realmente sinto como o Ikeda tinha uma visão clara e avançada e agora seu significado tem se tornado cada vez maior e realmente espero que mais pessoas sejam envolvidas nos projetos do Instituto, tornem-se conscientes sobre as questões do clima e do reflorestamento e também se tornem agentes da mudança para o mundo.
Instituto Soka Amazônia: Na Proposta de Paz de 2021, Daisaku Ikeda destacou a importância da participação dos jovens diante da crise climática e do futuro do planeta. Diante dessa perspectiva do presidente Ikeda, quais são as iniciativas mais promissoras lideradas por jovens na SGI no campo do meio ambiente e da paz?
Asai: No caso dos exemplos no Brasil, eu acredito que vocês saibam muito mais do que eu. Então, não é no sentindo de priorizar outros países, mas um dos casos dentre os países estrangeiros é a Índia. Quando eles realizaram a exposição “Sementes da Esperança e Ação” eles treinaram, de maneira frequente, os jovens para atuarem como monitores para os visitantes. Então, antes da exposição ser aberta, eles conduziram treinamentos para os jovens monitores. Assim, esses jovens aprenderam sobre essas questões [tratadas na exposição] profundamente e se tornaram agentes da mudança. Além disso, eles explicavam o conteúdo da exposição de maneira proativa aos visitantes. E também através explicação o diálogo entre monitores e visitantes era promovido. Eles também encorajaram cada escola e universidade a organizarem clubes da ODS após a exposição. E eu soube que mais de 50 escolas e universidades estabeleceram o Clube da ODS após a exposição “Sementes da Esperança e Ação”. Então esse é um dos exemplos. E eu soube que esse formato de treinar jovens antes [da exposição] foi implementado em outros países também.
Instituto Soka Amazônia: O que o senhor diria aos jovens que desejam contribuir para um mundo mais sustentável, mas se sentem desalentados diante dos grandes desafios globais?
Asai: É verdade que a crise climática é muito complicada e assustadora. E em muitos países os jovens estão enfrentando a depressão relacionada crise climática também. Então, realmente concordo com esse ponto. Porém, Dr. Ikeda sempre nos encorajou agir a partir do nosso próprio ambiente. Mesmo que seja muito pequeno ou que pareça sem sentido, mas nosso ambiente ou a situação da nossa família ou do nosso trabalho é um importante primeiro passo. Isso me fez recordar do episódio do Grande Terremoto do Leste no Japão, em 2011. Muitas pessoas tiveram que ir para os abrigos e, claro, todos os desabrigados enfrentavam uma situação muito severa. Porém, soube que muitos membros [da SGI] entraram em ação de maneira voluntária nos abrigos. Como você podem imaginar, acontecem muitos conflitos, brigas e desordem nos abrigos porque muitas pessoas que não se conhecem se juntam e têm que permanecer juntas por um longo tempo. E todas elas estavam bastante frustradas, então tais problemas aconteciam com muita frequência. Mas, os membros assumiram um papel de liderança no abrigo voluntariamente. Dessa forma, as pessoas desabrigadas puderam se sentir melhor e interagir uns com os outro de maneira mais branda ou mais amigável. E eu soube que uma pessoa bastante idosa disse que ela era já de idade avançada e não podia se mover rapidamente, mas ela tentava mostrar seu sorriso para as outras pessoas para que eles se sentissem confortáveis também. Então, dar um sorriso pode ser uma ação muito pequena, mas ela [a senhora] tomou a decisão de fazer aquela situação ficar melhor, fazer o seu ambiente melhor, e fez tal esforço. Então, qualquer pessoa pode fazer a diferença para a sociedade e pode-se iniciar através de um passo bem pequeno, mas nós acreditamos que mesmo esse pequeno passo pode fazer diferença na sociedade e para o mundo.
Instituto Soka Amazônia: Qual a impressão do senhor ao participar do evento (COP30)? Que mensagem ou aprendizado mais o marcou nessa experiência?
Asai: Essa é a 4ª COP em que participo. Como vocês sabem, a COP é um evento enorme. Então, ninguém consegue ter a visão total do que está acontecendo. Minha visão é limitada, mas até agora, a questão da floresta tem sido o foco, por causa do governo brasileiro. E um novo fundo será lançado, então sinto que é um passo importante e felizmente temos o Instituto Soka que está localizado no meio da floresta Amazônica e acredito que a Soka Gakkai possa fazer uma diferença ainda maior através dos esforços do Instituto. E isso será benéfico para a sociedade também. Outro ponto é sobre a ética, o governo brasileiro iniciou o Balanço Ético Global que incentiva todas as entidades ao redor do mundo a revisar o que aconteceu ou o que não aconteceu, porque temos o Acordo de Paris e outros vários tratados e diferente tipos de acordos internacionais, mas as mudanças foram realizadas de maneira suficiente e temos que rever e refletir. E dentro dessa iniciativa [do balanço ético] fomos incentivados a rever nossos processos de um ponto de vista ético. Então, é uma iniciativa muito nova e a SGI conduziu esse Balanço Ético em 6 países, envolvendo principalmente os jovens ou membros da Divisão dos Estudantes. Eu não tenho certeza se essa iniciativa irá continuar após essa COP, mas sinto realmente que deveria continuar. Desse ponto de vista, a SGI emitiu uma declaração semana passada para a COP 30 e destaca esse ponto também. E hoje mesmo, organizamos dois eventos paralelos juntamente com outras organizações religiosas e enfatizamos a questão da ética e dos valores, e esse é um ponto importante. Para ser sincero, os governos e os acadêmicos não deram ênfase a esses aspectos até agora, mas realmente sentimos que é importante. E gostaríamos de argumentar mais a partir desse ponto de vista e enfatizar seu significado. Assim, essa COP tem sido uma oportunidade muito boa para compreender a importância desse ponto.
Instituto Soka Amazônia: Por favor, deixe uma mensagem aos leitores do site do Instituto Soka Amazônia — especialmente aos jovens que desejam contribuir para um mundo mais sustentável e pacífico.
Asai: Hoje em dia, parcialmente por causa das redes sociais e também devido a alguns líderes autoritários, a divisão social está emergindo em várias partes do mundo e em vários níveis também. Está ficando difícil para as pessoas se unirem. E também teorias de conspiração e desinformação estão prevalecendo. Então, estamos enfrentando muitos problemas novos ou desafios. Porém, Dr. Ikeda sempre nos incentivou e sempre confiou nos jovens para que eles possam realizar mudanças significativas.
Agora o legado do nosso fundador, tem se tornado cada vez mais importante, então gostaríamos de aprender mais por meio das obras e publicações. Agora é o momento oportuno para mostrar esse significado e creio realmente que podemos fazer a diferença na sociedade. E acredito especialmente que os jovens brasileiros farão grande diferença para o mundo. Dessa forma, gostaria de me unir a todos vocês. Muito obrigado.
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João Carlos Júnior, diretor ambiental do Instituto Soka Amazônia, fala sobre projetos parceiros e convida os jovens a somar forças
A Carta da Terra é uma grande parceira do instituto há algum tempo. Antes de tudo, é uma bússola ética e esse é o primeiro princípio que ela nos traz: está estreitamente em coexistência, em colaboração com o pensamento do Dr. Ikeda. Então, a Carta na Terra transcende a questão temporal. Ela traz quatro princípios muito sólidos, éticos, esse senso da terra comum, da mãe-terra.
Nosso trabalho com a Carta da Terra vai além de ela ser um documento. É um documento vivo, porque estamos abrindo perspectivas para o ano 2026, uma colaboração Manaus e Belém, com as nossas relações que temos aqui, a partir da COP.
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Gostaria muito de enviar uma mensagem, aos nossos leitores brasileiros, de algo que percebi hoje participando do painel na COP. De que a revolução humana é possível pela educação de valor. Quando a gente vê a ética, as expressões da fé, esses são caminhos saudáveis dessa revolução humana, dessa construção que é possível ser feita. Então, para os jovens, posso dizer que eles têm essa força dentro deles, que possam acreditar nela, utilizando-se dessa própria revolução humana para que a fé, bem como a ética, seja o caminho seguro para seguir com confiança. No dia de hoje, não no dia de amanhã, com esse protagonismo jovem, a gente pode construir muitas coisas juntos. Estaremos de braços dados com vocês.