Daisaku Ikeda — fundador do Instituto Soka Amazônia

02 de janeiro — aniversário natalício do fundador do Instituto Soka Amazônia

 

Daisaku Ikeda (1928–2023), nasceu em 2 de janeiro de 1928, em Tóquio, Japão, como o quinto dos oito filhos de Ichi e Nenokichi Ikeda, que viviam humildemente do cultivo de algas marinhas.

Desde a infância, Dai, como era chamado pelos familiares, conviveu com a destruição e as atrocidades da Segunda Guerra Mundial, conflito que ceifou a vida do seu irmão mais velho, Kiichi. No entanto, ao longo da vida, o jovem reverteu a tristeza em uma profunda decisão de realizar ações efetivas pela paz no mundo e pela felicidade das pessoas.

Daisaku Ikeda foi um filósofo budista, construtor da paz, educador, autor e poeta que, por mais de sete décadas, dedicou-se incansavelmente pela defesa do diálogo como um meio central para enfrentar os desafios globais.

Grande incentivador da criação da Carta da Terra, documento que propõe princípios éticos fundamentais para uma sociedade global justa e sustentável, enviou, por quase quatro décadas, Propostas de Paz anuais à Organização das Nações Unidas (ONU), compartilhando reflexões sobre soluções às questões fundamentais para a humanidade, como desarmamento, combate a fome, meio ambiente, direitos humanos e educação humanística.

Como fundador do Instituto Soka Amazônia, dedicou sua vida à promoção da educação humanística, da cultura e do diálogo como caminhos para a transformação da sociedade.

Dr. Ikeda defendeu, ao longo de sua trajetória, que a verdadeira mudança começa pela transformação interior do ser humano, colocando a dignidade da vida no centro de todas as ações.

Mesmo nunca tendo visitado a região amazônica, Ikeda manifestou em diversas ocasiões seu profundo sentimento pela Amazônia.

Esse interesse culminou na criação do Centro de Pesquisas e Estudos da Amazônia (Cepeam), cujas atividades tiveram início na década de 1990.

Com a instauração da Reserva Particular de Patrimônio Natural Daisaku Ikeda, na região do Encontro das Águas em Manaus, o ideal do senhor Ikeda pode ser cristalizado em projetos e iniciativas promovidas pelo Instituto Soka Amazônia.

Daisaku Ikeda recebeu de instituições amazônicas títulos e homenagens como: Doutor Honorário do Instituto Federal do Amazonas (2010); Medalha da Ordem do Mérito Jurídico (2018); Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Amazonas (2019). Ikeda é Membro Correspondente da Academia Amazonense de Letras.

 

Diálogo com Wangari Maathai

Em fevereiro de 2005, no Japão, Dr. Ikeda encontrou-se com Dra. Wangari Maathai (1940-2011) foi uma cientista, professora e ativista queniana, pioneira na luta por justiça ambiental, direitos humanos e empoderamento feminino na África, fundando o Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde) para combater a desertificação através do plantio de árvores por mulheres, o que a tornou a primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz em 2004.

Compartilhamos trechos deste encontro, que foi publicado na revista Terceira Civilização

Os membros da Associação para a Amizade Pan-Africana da Universidade Soka receberam a Dra. Maathai com a canção This is Our Home (Este é nosso Lar), cantada no idioma dessa ativista ambiental, em kikuyu. Essa canção, que é o hino do Movimento Cinturão Verde, tem os seguintes versos:

Este é nosso lar

 Nossa meta é árvores aqui plantar

De mulheres é feito nosso lar

 Venha, vamos levar as mudas e plantar.

Dançando ao ritmo da música, a Dra. Maathai respondeu à sincera apresentação daqueles jovens com um radiante sorriso, sua marca registrada.

 

Dr. Ikeda: Karibu! (“Bem-vinda”, em suaíli). Parabéns pelo Prêmio Nobel da Paz!

A senhora é uma pioneira do “Século das Mulheres”, e as mulheres do mundo todo estão aplaudindo suas realizações e também o bem-merecido reconhecimento que lhe foi concedido. Antigamente, os homens menosprezavam e discriminavam as mulheres frequentemente, tratando com inveja e rancor aquelas que conseguiam realizar feitos grandiosos

 

Dra. Maathai: Tenho acompanhado há algum tempo as atividades desta organização [a SGI] desde que conheci alguns membros durante os diálogos realizados sobre a Carta da Terra. E foi durante esse fórum que passei a apreciar os valores defendidos por seu grupo e soube que se baseavam nos ensinos do budismo, que se caracteriza por um profundo respeito à vida, à natureza e à sociedade. Esses são também os principais valores que sustentamos em nosso Movimento Cinturão Verde.

 

Dr. Ikeda: A senhora poderia contar-nos algumas das recordações de seus pais para nossos leitores? Por exemplo, alguma bronca ou elogio que tenha recebido — seja o que for, será excelente.

 

Dra. Maathai: Com certeza. Lembro-me de um incidente ocorrido quando eu era muito jovem. A região onde morávamos era cercada por montanhas. Certa manhã, acordei bem cedo e fui para fora. Ainda estava escuro e podia ver as estrelas no céu. Então, vi de repente uma estrela cadente e fiquei com medo. Voltei para dentro de casa e perguntei para minha mãe por que o céu não caía.

Minha mãe me disse: “O céu nunca cairá porque nas montanhas que cercam nossa fazenda vivem búfalos gigantes com grandes chifres que o seguram. É por isso que ele nunca cairá.”

Eu era muito criança. Isso me pareceu uma fábula maravilhosa e não senti mais medo. Durante muitos anos acreditei que havia búfalos no céu, e hoje me recordo dessa história como um símbolo da forma maravilhosa como o mundo natural nos protege e nos nutre.

 

Dr. Ikeda: É realmente uma história maravilhosa. Hoje em dia temos falado muito a respeito do meio ambiente, mas falar não é suficiente. A conscientização sobre a questão é de absoluta importância para avançarmos de forma racional para uma direção positiva — na verdade, para a sobrevivência da raça humana.

Até agora, não conseguimos cultivar essa consciência ambiental nem no governo nem na educação. Embora tanto o governo como a educação tivessem por dever ensinar às pessoas sobre o meio ambiente, nenhum dos dois o fez. Ao contrário, incentivaram as pessoas a não valorizar a natureza. E isso teve consequências fatais. Nós, seres humanos, orgulhamo-nos de nossa inteligência, mas, na verdade, comportamo-nos de forma muito estúpida.

 

Dr. Ikeda: Soube que, certa vez, a senhora incentivou seu filho ensinando-lhe que a diferença entre o êxito e o fracasso na vida está simplesmente no ato de levantar-se quando cai. Essa é uma maravilhosa filosofia de esperança e compromisso com a vitória. E a senhora também demonstrou essa vitória em sua vida, vencendo numerosos sofrimentos e dificuldades com tranquilidade e decisão.

 

Dra. Maathai: Eu e meus companheiros do Movimento Cinturão Verde sentimo-nos muito gratos pelo fato de o Comitê do Prêmio Nobel ter reconhecido nossos esforços em prol do meio ambiente. Embora esse reconhecimento tenha vindo em meu nome, sei que é uma homenagem concedida a todas as pessoas que têm trabalhado nessa área, transmitindo uma forte mensagem de que o meio ambiente é de vital importância para a paz. Não podemos ter paz se destruirmos o meio ambiente.

 

Dra. Maathai: Na Bíblia, a história da criação começa com o surgimento da terra, das plantas e das espécies animais. Somente no final o ser humano é criado. Para mim, isso significa que o restante da criação não necessita realmente do homem; somos nós que necessitamos das outras espécies. Costumo dizer que, se a humanidade tivesse sido criada em primeiro lugar, teríamos morrido no dia seguinte. Essa concepção deveria nos tornar mais humildes e fazer com que nos empenhássemos mais arduamente para proteger e preservar todos os seres vivos, pois nossa sobrevivência depende da deles.

 

Dr. Ikeda: O futuro é agora — outro dia eu disse exatamente isso. Gostaria de aprender mais com a senhora, Dra. Maathai, e difundir essa sabedoria pelo mundo todo.

Muitas pessoas comentam sobre seu maravilhoso sorriso, e várias de nossas estudantes da Universidade e da Faculdade Feminina Soka pediram-me que eu lhe perguntasse qual é o segredo de seu sorriso radiante.

 

Dra. Maathai: Nós sorrimos quando estamos felizes. Quando vemos o Sol, dizemos que o céu está sorrindo para nós. Ao vermos as flores, dizemos que a natureza está sorrindo. Este mundo, esta vida, é uma experiência magnífica.

Estávamos falando há pouco sobre os jovens. É importante fazer com que eles saibam que também nos fazem sorrir. Eles são uma grande dádiva para nós e têm uma vida maravilhosa pela frente. Mas também devem se conscientizar de que, se quiserem mudar algo, devem dar início a essa transformação. De qualquer forma, creio que a vida é uma experiência magnífica que devemos desfrutar.

 

Dr. Ikeda: Em um discurso proferido na Universidade de Nairóbi no ano passado (em novembro de 2004), a senhora disse: “Não fiquem sentados apenas reclamando. Quem estão esperando que entre em ação? Vocês é que devem agir.” Estou convicto de que devemos transmitir às pessoas do mundo todo o apelo que a senhora fez naquela ocasião.

Nesse sentido, o que a senhora acha que devemos fazer para solucionar a crise ambiental? Na sua opinião, qual é o passo mais importante que nós, como indivíduos ou grupos, podemos dar?

 

Dra. Maathai: O senhor há pouco citou um comentário meu, segundo o qual servir aos outros é a maior felicidade na vida. Todos os grandes mestres não passaram a vida voltados para si mesmos, ao contrário, dedicaram-se pelo bem dos outros. Creio que servir, dar de si, é uma experiência muito satisfatória. Especialmente quando a pessoa tem dons naturais, é importante compartilhá-los — assim como uma árvore, que compartilha os frutos que produz. É bom partilhar e se voluntariar para servir aos outros.

Os jovens precisam também aprender que podem encontrar satisfação em servir — e que, algumas vezes, a insatisfação que sentem vem do fato de se concentrarem muito em si mesmos.

 

Dr. Ikeda: Essa é uma abordagem muito esclarecedora. Seu estudo da biologia realmente ajudou muito em suas atividades de proteção ambiental, não é mesmo?

 

Dra. Maathai: Sim. Como bióloga, tive o privilégio de aprender como a natureza funciona. A ciência nos incentiva a desenvolvermos o pensamento crítico e a questionarmos — “Por que isso acontece?” e “Como isso funciona?”.

 

Dra. Maathai: A primeira Conferência das Nações Unidas sobre as Mulheres foi realizada no México em 1975. Em meus preparativos para essa atividade, fiz uma pesquisa sobre as necessidades das mulheres quenianas e soube que o que elas mais queriam era água potável para beber, combustível para cozinhar — principalmente lenha — e alimentos cultivados. Percebi que essas questões estavam todas intimamente ligadas à terra. Então compreendi claramente que muitos dos problemas que as comunidades enfrentavam decorriam da degradação ambiental.

Consegui então mobilizar as pessoas, aos poucos, para que mudassem seu próprio ambiente realizando algo para si próprias, em vez de ficarem esperando pelo governo ou pelos líderes comunitários.

Percebi também que, com muita frequência, as pessoas não compreendiam que havia uma relação entre a degradação ambiental e as necessidades da sociedade, e assim comecei com um programa educacional para ajudar as pessoas a entenderem isto. À medida que mais e mais pessoas compreendiam essa relação com clareza, ofereciam-se para colaborar e participar de nosso movimento.

 

Dr. Ikeda: O resultado foi um grande número de mulheres trabalhando juntas, criando uma força nova e surpreendente voltada para a ação positiva.

Quando a Dra. Maathai deixou o prédio, jovens agitando bandeiras do Quênia proporcionaram a essa incansável defensora do meio ambiente, dos direitos humanos e da paz uma calorosa despedida. Ao se despedir de sua convidada, o Dr. Ikeda disse que nunca se esqueceria daquele encontro e que ansiava por vê-la novamente. Também expressou seus melhores votos de contínuo sucesso.

Para ler a versão em inglês, clique aqui

A missão do Instituto Soka Amazônia

Com sede em Manaus (AM), o Instituto Soka Amazônia se destaca por suas ações em defesa da floresta, com foco na educação ambiental e no engajamento comunitário.

Entre suas iniciativas estão projetos educativos com estudantes, que promovem o contato direto com a natureza por meio de trilhas ecológicas, oficinas e campanhas de sensibilização. A valorização da cultura amazônica também é central, integrando saberes tradicionais como ferramentas para a preservação ambiental.

O Instituto atua com a convicção de que conhecer a floresta é o primeiro passo para protegê-la, assim como orienta o fundador, Dr. Daisaku Ikeda

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