Aceitar o desafio de tornar possível o impossível


Viajando pelo mundo usando energia limpa: entrevista com um aventureiro suíço

Bertrand Piccard nasceu na Suíça em 1958. Ele é aventureiro e psiquiatra. Em 2016, completou uma volta ao mundo em uma aeronave movida a energia solar. Em seguida, fundou a Fundação Solar Impulse para promover tecnologias e métodos que equilibrem a rentabilidade com a proteção ambiental. Foi Embaixador da Boa Vontade do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) de 2015 a 2023. Entre suas obras está Une Trace Dans le Ciel.

Bertrand Piccard, aventureiro e psiquiatra

“Dar a volta ao mundo em um avião movido exclusivamente a energia solar, sem usar combustíveis fósseis” – existe uma pessoa, a primeira na história da humanidade, que realizou esse “voo dos sonhos”: o aventureiro suíço Bertrand Piccard. Ele, que tentará “circunavegar o mundo em um avião movido a hidrogênio verde” em 2029, está divulgando a importância de estilos de vida com eficiência energética para proteger o meio ambiente global. Conversamos com ele sobre o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 7, “Energia Acessível e Limpa”.

 

Sr. Piccard, o que despertou seu interesse por aventuras?

 

Fui muito influenciado pelo meu avô e pelo meu pai, que eram cientistas e aventureiros. Meu avô foi a primeira pessoa a alcançar a estratosfera em um balão e inventou a “cabine pressurizada” usada em muitas aeronaves atualmente. Meu pai foi a primeira pessoa a mergulhar na parte mais profunda da Fossa das Marianas em um submersível.

Graças às conexões do meu avô e do meu pai, tive a oportunidade de conhecer aventureiros e cientistas famosos desde cedo e, aos 11 anos, vivi a experiência inesquecível de presenciar de perto o lançamento da Apollo 11, a primeira missão tripulada a ter sucesso no pouso na Lua. Sem perceber, comecei também a alimentar o desejo de “me aventurar no desconhecido e realizar algo sem precedentes”.

 

No entanto, meu interesse não se limitava ao “mundo exterior”, como o espaço ou as profundezas do oceano, mas também se estendia ao “mundo interior” dos seres humanos, à “mente”. Estudei medicina na universidade e me tornei psiquiatra.

 

Mas minha paixão pela aventura jamais se apagou, e continuei competindo no esporte de voo livre, o “asa-delta”, desde os 16 anos, tornando-me campeão europeu aos 27. Quando estava com 41 anos, tornei-me a primeira pessoa na história a completar uma volta ao mundo de balão sem escalas.

 

E por que iniciou posteriormente um projeto para dar a volta ao mundo em um “avião movido a energia solar, sem usar combustíveis fósseis”?

 

Eu queria aproveitar ainda mais o espírito de aventura e de exploração que herdei do meu avô e do meu pai na área da “proteção ambiental”. Mesmo como psiquiatra, não posso ignorar os problemas da poluição do ar e das mudanças climáticas, que estão levando a uma queda na “qualidade de vida” das pessoas. Eu queria contribuir para a disseminação de energia limpa e renovável, então lancei o projeto “Solar Impulse” para dar a volta ao mundo em um avião movido a energia solar.

Na época, a energia solar não era muito difundida, então pensei que seria “um passo inovador” para demonstrar seu potencial.

É claro que assumir um desafio que ninguém jamais realizou antes sempre será difícil. Como não havia precedentes, tivemos que criar a ideia a partir do zero. Quando consultei alguém com conhecimento em fabricação de aeronaves, essa pessoa me disse: “É impossível obter energia para voar um avião apenas com a luz solar”. Então, me perguntei se haveria uma maneira de minimizar o “consumo de energia” da aeronave e decidi usar “materiais leves e duráveis”.

Utilizando diversas outras tecnologias de ponta, o “Solar Impulse 1” que construí provou que voos noturnos eram possíveis usando a energia armazenada da luz solar. O “Solar Impulse 2” foi então desenvolvido para permitir não apenas voos noturnos, mas também voos de longa duração, que compreendiam vários dias de duração para possibilitar travessias oceânicas.

 

Embora tenha havido períodos de reparo ao longo do caminho, conseguimos completar a circunavegação do mundo em um total de 17 voos, ao longo de 23 dias, de março de 2015 a julho de 2016. Para mim, este projeto foi um “desafio para tornar possível o impossível”.

 

 

Revitalizando a economia por meio da proteção ambiental

Após concluir sua volta ao mundo de avião, fundou a Fundação Solar Impulse, com o objetivo de promover tecnologias e métodos lucrativos com baixo impacto ambiental.

 

A proteção ambiental e as medidas de combate às mudanças climáticas são frequentemente associadas a “custos elevados”, “dificuldade de crescimento econômico” e “restrições à liberdade de movimento” que impõem sacrifícios. Por mais que incentivem outras a “proteger o meio ambiente, mesmo que isso signifique contrair a economia”, são poucas as pessoas que realmente agem.

No entanto, na verdade, esse não é o caso. Existem muitas tecnologias e exemplos que podem reduzir o impacto ambiental e, ao mesmo tempo, cortar custos. A proteção ambiental e as medidas de combate às mudanças climáticas também podem ser oportunidades lucrativas de negócios.

A fundação, além de selecionar mais de 1.600 dessas tecnologias e exemplos e os publicar em seu site, também os apresenta em conferências internacionais e os divulga para políticos e líderes empresariais.

Há cerca de 10 anos, tive a oportunidade de discursar sobre tecnologias ecologicamente corretas para um grupo de parlamentares em um determinado país, muitos dos quais não eram particularmente proativos na proteção ambiental. Quando falei da perspectiva da rentabilidade, a visão daqueles que antes se opunham à ideia mudou para uma mais positiva. Mais tarde, quando o país decidiu implementar uma política de energias renováveis, um dos parlamentares me disse: “Sua história me convenceu e votei a favor”.

Foi naquele momento que percebi que uma nova narrativa – de que “a proteção ambiental pode ser uma forma de gerar lucros, criar empregos e estimular a economia” – pode levar pessoas de diferentes posições, tanto de esquerda quanto de direita, e de uma ampla gama de áreas, incluindo política e negócios, à uma solidariedade, em vez da dissensão.

 

O que seria necessário para alcançar o ODS 7, “Energia Acessível e Limpa”?

 

Continuamos presos a um pensamento ultrapassado do século 20 e desperdiçamos quantidades enormes de energia usando infraestrutura obsoleta. Continuamos pagando quantias exorbitantes para esgotar recursos e criar as causas da poluição do ar e das mudanças climáticas.

Contudo, já existem muitas novas tecnologias que podem oferecer soluções. A chave é como implementá-las nos lugares certos.

Existem maneiras de melhorar a eficiência energética em nosso dia a dia. Por exemplo, existe uma tecnologia chamada “bomba de calor” que extrai calor do ar e permite aquecimento e resfriamento com baixo consumo de eletricidade. Há também um método para aproveitar o calor residual de estacionamentos subterrâneos e metrôs para aquecer e fornecer água quente para edifícios acima deles.

Recentemente, com a disseminação da digitalização e da IA (Inteligência Artificial), houve um aumento na demanda por grandes instalações de computadores conhecidas como “data centers”. Esses sistemas geram grandes quantidades de calor durante a operação contínua, mas esse calor também deve poder ser usado como energia. Indícios de aproveitamento energético podem ser encontrados em todos os lugares.

Criatividade e Espírito Pioneiro


Sr. Piccard, o senhor está planejando um voo ao redor do mundo sem escalas usando “hidrogênio verde”, um combustível que vem atraindo atenção como fonte de energia que não emite dióxido de carbono durante sua produção ou uso.

 

Sim. Quero demonstrar o potencial do hidrogênio verde por meio de um voo ao redor do mundo na aeronave “Climate Impulse”, movida a hidrogênio verde. Acredito que o hidrogênio pode ser usado em aeronaves, navios, ferrovias e até mesmo na produção de aço e fertilizantes.

Algumas pessoas dizem que “o hidrogênio verde é muito caro para ser lucrativo” ou “é impossível de utilizar”, mas precisamos ter uma visão de longo prazo. Por exemplo, os telefones celulares eram originalmente do tamanho de uma mala e custavam mais de 1 milhão de ienes em valores atuais. No entanto, os avanços tecnológicos os tornaram algo que todos podem carregar no bolso. A geração de energia solar custava 40 vezes mais que hoje há vinte e cinco anos, mas, como a demanda e a oferta aumentaram, os preços caíram.

Desejo que este projeto “Impulso Climático” inspire e encoraje a todos. Gostaria especialmente de dizer à geração mais jovem que “continue a ter esperança no futuro”. Quero mostrar que “existem soluções que podem resolver os problemas ambientais” e que, “se aproveitarmos a criatividade que os seres humanos possuem, podemos superar os desafios que a humanidade enfrenta”.

 

O Dr. Daisaku Ikeda teve muitas conversas com o Dr. Aurélio Peccei, fundador do Clube de Roma, e publicou uma coletânea dessas conversas, Antes que Seja Tarde Demais (título em português). Os dois autores concordaram que “a solução para os problemas globais reside em uma ‘revolução humana’ na qual os próprios seres humanos mudem”.

 

Antes que Seja Tarde Demais é um livro muito famoso. Concordo com a ideia de que “os próprios seres humanos precisam mudar para tornar o mundo um lugar melhor”. Se a compaixão, o respeito pela natureza e o respeito pelos outros se disseminassem mais amplamente, o futuro da humanidade certamente seria mais promissor.

Acredito que, para proteger o meio ambiente global, precisamos envolver muitas pessoas. Infelizmente, existem pessoas extremamente egocêntricas neste mundo que estão interessadas apenas no benefício próprio. O que é necessário para orientar as ações dessas pessoas em direção à proteção ambiental, em vez da destruição? Acredito que uma das chaves seja falar de uma maneira adequada à pessoa com quem se está falando.

Eu me comunico com o coração àqueles que são movidos pela compaixão e com a lógica àqueles que são movidos pela razão. E mesmo àqueles que se preocupam somente com o lucro, digo-lhes: “Isto também vai beneficiar vocês”, e mostro-lhes exemplos do mundo real. De fato, à medida que venho colocando isso em prática repetidamente, muitas pessoas mudaram o seu comportamento em relação à proteção ambiental e se tornaram mais abertas à energia limpa.

Questões ambientais como a poluição atmosférica e as alterações climáticas são desafios globais enormes. Quanto mais aprendemos, mais ansiosos ficamos e, por vezes, sentimos vontade de desistir. Mas acredito que “estes problemas podem ser resolvidos com a ‘criatividade humana’ e um ‘espírito pioneiro’ que torna possível o impossível”. É fato que tecnologias e métodos que conduzem a soluções e que também geram benefícios econômicos continuam a ser desenvolvidos. Espero que se dê mais atenção a isto.

Continuar a aceitar o desafio de proteger a vida das gerações atuais e futuras – essa é a minha “aventura do século 21”. Continuarei a abraçar grandes ideais, a tomar medidas práticas e concretas e a trabalhar para proteger o ambiente global.



A entrevista foi publicada no jornal japonês Seikyo Shimbun, 20 de janeiro de 2026


A foto da capa é cortesia da Fundação Solar Impulse e do entrevistado. 

https://bertrandpiccard.com/exploration/breitling-orbiter

A missão do Instituto Soka Amazônia

Com sede em Manaus (AM), o Instituto Soka Amazônia se destaca por suas ações em defesa da floresta, com foco na educação ambiental e no engajamento comunitário.

Entre suas iniciativas estão projetos educativos com estudantes, que promovem o contato direto com a natureza por meio de trilhas ecológicas, oficinas e campanhas de sensibilização. A valorização da cultura amazônica também é central, integrando saberes tradicionais como ferramentas para a preservação ambiental.

O Instituto atua com a convicção de que conhecer a floresta é o primeiro passo para protegê-la, assim como orienta o fundador, Dr. Daisaku Ikeda

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Semear a Esperança


Colégio Soka e Instituto Soka Amazônia unem forças pela educação ambiental

 O dia 26 de janeiro marca o Dia Mundial da Educação Ambiental, instituído em 1975 pela Organização das Nações Unidas durante a Conferência de Belgrado. A data simboliza um compromisso global: promover a conscientização sobre a preservação ambiental e incentivar práticas sustentáveis que refletem a responsabilidade humana diante do planeta.

Nesta manhã, em São Paulo, o corpo docente do Colégio Soka participou da palestra “Formação: Currículo e a Metodologia de Sustentabilidade: Colégio Soka e Instituto Soka Amazônia”, conduzida por João Carlos dos Santos, diretor ambiental do Instituto Soka Amazônia.

A sessão formativa foi dinâmica e participativa, promovendo uma verdadeira ponte para o conhecimento. João Carlos contextualizou a educação ambiental a partir de referências fundamentais, como a obra do Dr. Daisaku Ikeda, Educação Soka e a encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco.

“Sustentabilidade é um ato de justiça. O ser humano é capaz de mudar, pois está em constante desenvolvimento. Cada indivíduo tem o poder de transformar o mundo”, enfatizou João.

Em um segundo momento, os profissionais foram organizados em três grupos e convidados a criar propostas de práticas sustentáveis capazes de envolver famílias ou a comunidade local, integrando-as às turmas de alunos.

Os diálogos levantados trataram de temas como o uso correto da coleta seletiva, o descarte adequado de resíduos eletrônicos e estratégias para engajar a comunidade em ações ambientais contínuas.

Ao final da atividade, João Carlos reforçou a importância da ação imediata: “É uma honra estar com vocês. Espero que tenha sido um momento alegre e inspirador. A felicidade de toda a comunidade escolar é o nosso propósito. O Instituto Soka Amazônia e o Colégio Soka estão unidos neste ideal. Quando despertamos a consciência de que somos protagonistas, tudo se torna possível.”

O diretor do Colégio Soka, Rodrigo Conceição, expressou agradecimento pela formação e destacou sua relevância: “De fato, temos um projeto acadêmico capaz de transformar a realidade ao nosso redor. O encontro de hoje representa um divisor de águas para todos nós.”

 

Para conhecer o Colégio Soka do Brasil, clique aqui.

Algumas fotos do evento

Rodrigo Conceição, diretor geral do Colégio Soka e João Carlos, diretor ambiental do Instituto Soka Amazônia

A missão do Instituto Soka Amazônia

Com sede em Manaus (AM), o Instituto Soka Amazônia se destaca por suas ações em defesa da floresta, com foco na educação ambiental e no engajamento comunitário.

Entre suas iniciativas estão projetos educativos com estudantes, que promovem o contato direto com a natureza por meio de trilhas ecológicas, oficinas e campanhas de sensibilização. A valorização da cultura amazônica também é central, integrando saberes tradicionais como ferramentas para a preservação ambiental.

O Instituto atua com a convicção de que conhecer a floresta é o primeiro passo para protegê-la, assim como orienta o fundador, Dr. Daisaku Ikeda

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Daisaku Ikeda — fundador do Instituto Soka Amazônia

02 de janeiro — aniversário natalício do fundador do Instituto Soka Amazônia

 

Daisaku Ikeda (1928–2023), nasceu em 2 de janeiro de 1928, em Tóquio, Japão, como o quinto dos oito filhos de Ichi e Nenokichi Ikeda, que viviam humildemente do cultivo de algas marinhas.

Desde a infância, Dai, como era chamado pelos familiares, conviveu com a destruição e as atrocidades da Segunda Guerra Mundial, conflito que ceifou a vida do seu irmão mais velho, Kiichi. No entanto, ao longo da vida, o jovem reverteu a tristeza em uma profunda decisão de realizar ações efetivas pela paz no mundo e pela felicidade das pessoas.

Daisaku Ikeda foi um filósofo budista, construtor da paz, educador, autor e poeta que, por mais de sete décadas, dedicou-se incansavelmente pela defesa do diálogo como um meio central para enfrentar os desafios globais.

Grande incentivador da criação da Carta da Terra, documento que propõe princípios éticos fundamentais para uma sociedade global justa e sustentável, enviou, por quase quatro décadas, Propostas de Paz anuais à Organização das Nações Unidas (ONU), compartilhando reflexões sobre soluções às questões fundamentais para a humanidade, como desarmamento, combate a fome, meio ambiente, direitos humanos e educação humanística.

Como fundador do Instituto Soka Amazônia, dedicou sua vida à promoção da educação humanística, da cultura e do diálogo como caminhos para a transformação da sociedade.

Dr. Ikeda defendeu, ao longo de sua trajetória, que a verdadeira mudança começa pela transformação interior do ser humano, colocando a dignidade da vida no centro de todas as ações.

Mesmo nunca tendo visitado a região amazônica, Ikeda manifestou em diversas ocasiões seu profundo sentimento pela Amazônia.

Esse interesse culminou na criação do Centro de Pesquisas e Estudos da Amazônia (Cepeam), cujas atividades tiveram início na década de 1990.

Com a instauração da Reserva Particular de Patrimônio Natural Daisaku Ikeda, na região do Encontro das Águas em Manaus, o ideal do senhor Ikeda pode ser cristalizado em projetos e iniciativas promovidas pelo Instituto Soka Amazônia.

Daisaku Ikeda recebeu de instituições amazônicas títulos e homenagens como: Doutor Honorário do Instituto Federal do Amazonas (2010); Medalha da Ordem do Mérito Jurídico (2018); Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Amazonas (2019). Ikeda é Membro Correspondente da Academia Amazonense de Letras.

 

Diálogo com Wangari Maathai

Em fevereiro de 2005, no Japão, Dr. Ikeda encontrou-se com Dra. Wangari Maathai (1940-2011) foi uma cientista, professora e ativista queniana, pioneira na luta por justiça ambiental, direitos humanos e empoderamento feminino na África, fundando o Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde) para combater a desertificação através do plantio de árvores por mulheres, o que a tornou a primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz em 2004.

Compartilhamos trechos deste encontro, que foi publicado na revista Terceira Civilização

Os membros da Associação para a Amizade Pan-Africana da Universidade Soka receberam a Dra. Maathai com a canção This is Our Home (Este é nosso Lar), cantada no idioma dessa ativista ambiental, em kikuyu. Essa canção, que é o hino do Movimento Cinturão Verde, tem os seguintes versos:

Este é nosso lar

 Nossa meta é árvores aqui plantar

De mulheres é feito nosso lar

 Venha, vamos levar as mudas e plantar.

Dançando ao ritmo da música, a Dra. Maathai respondeu à sincera apresentação daqueles jovens com um radiante sorriso, sua marca registrada.

 

Dr. Ikeda: Karibu! (“Bem-vinda”, em suaíli). Parabéns pelo Prêmio Nobel da Paz!

A senhora é uma pioneira do “Século das Mulheres”, e as mulheres do mundo todo estão aplaudindo suas realizações e também o bem-merecido reconhecimento que lhe foi concedido. Antigamente, os homens menosprezavam e discriminavam as mulheres frequentemente, tratando com inveja e rancor aquelas que conseguiam realizar feitos grandiosos

 

Dra. Maathai: Tenho acompanhado há algum tempo as atividades desta organização [a SGI] desde que conheci alguns membros durante os diálogos realizados sobre a Carta da Terra. E foi durante esse fórum que passei a apreciar os valores defendidos por seu grupo e soube que se baseavam nos ensinos do budismo, que se caracteriza por um profundo respeito à vida, à natureza e à sociedade. Esses são também os principais valores que sustentamos em nosso Movimento Cinturão Verde.

 

Dr. Ikeda: A senhora poderia contar-nos algumas das recordações de seus pais para nossos leitores? Por exemplo, alguma bronca ou elogio que tenha recebido — seja o que for, será excelente.

 

Dra. Maathai: Com certeza. Lembro-me de um incidente ocorrido quando eu era muito jovem. A região onde morávamos era cercada por montanhas. Certa manhã, acordei bem cedo e fui para fora. Ainda estava escuro e podia ver as estrelas no céu. Então, vi de repente uma estrela cadente e fiquei com medo. Voltei para dentro de casa e perguntei para minha mãe por que o céu não caía.

Minha mãe me disse: “O céu nunca cairá porque nas montanhas que cercam nossa fazenda vivem búfalos gigantes com grandes chifres que o seguram. É por isso que ele nunca cairá.”

Eu era muito criança. Isso me pareceu uma fábula maravilhosa e não senti mais medo. Durante muitos anos acreditei que havia búfalos no céu, e hoje me recordo dessa história como um símbolo da forma maravilhosa como o mundo natural nos protege e nos nutre.

 

Dr. Ikeda: É realmente uma história maravilhosa. Hoje em dia temos falado muito a respeito do meio ambiente, mas falar não é suficiente. A conscientização sobre a questão é de absoluta importância para avançarmos de forma racional para uma direção positiva — na verdade, para a sobrevivência da raça humana.

Até agora, não conseguimos cultivar essa consciência ambiental nem no governo nem na educação. Embora tanto o governo como a educação tivessem por dever ensinar às pessoas sobre o meio ambiente, nenhum dos dois o fez. Ao contrário, incentivaram as pessoas a não valorizar a natureza. E isso teve consequências fatais. Nós, seres humanos, orgulhamo-nos de nossa inteligência, mas, na verdade, comportamo-nos de forma muito estúpida.

 

Dr. Ikeda: Soube que, certa vez, a senhora incentivou seu filho ensinando-lhe que a diferença entre o êxito e o fracasso na vida está simplesmente no ato de levantar-se quando cai. Essa é uma maravilhosa filosofia de esperança e compromisso com a vitória. E a senhora também demonstrou essa vitória em sua vida, vencendo numerosos sofrimentos e dificuldades com tranquilidade e decisão.

 

Dra. Maathai: Eu e meus companheiros do Movimento Cinturão Verde sentimo-nos muito gratos pelo fato de o Comitê do Prêmio Nobel ter reconhecido nossos esforços em prol do meio ambiente. Embora esse reconhecimento tenha vindo em meu nome, sei que é uma homenagem concedida a todas as pessoas que têm trabalhado nessa área, transmitindo uma forte mensagem de que o meio ambiente é de vital importância para a paz. Não podemos ter paz se destruirmos o meio ambiente.

 

Dra. Maathai: Na Bíblia, a história da criação começa com o surgimento da terra, das plantas e das espécies animais. Somente no final o ser humano é criado. Para mim, isso significa que o restante da criação não necessita realmente do homem; somos nós que necessitamos das outras espécies. Costumo dizer que, se a humanidade tivesse sido criada em primeiro lugar, teríamos morrido no dia seguinte. Essa concepção deveria nos tornar mais humildes e fazer com que nos empenhássemos mais arduamente para proteger e preservar todos os seres vivos, pois nossa sobrevivência depende da deles.

 

Dr. Ikeda: O futuro é agora — outro dia eu disse exatamente isso. Gostaria de aprender mais com a senhora, Dra. Maathai, e difundir essa sabedoria pelo mundo todo.

Muitas pessoas comentam sobre seu maravilhoso sorriso, e várias de nossas estudantes da Universidade e da Faculdade Feminina Soka pediram-me que eu lhe perguntasse qual é o segredo de seu sorriso radiante.

 

Dra. Maathai: Nós sorrimos quando estamos felizes. Quando vemos o Sol, dizemos que o céu está sorrindo para nós. Ao vermos as flores, dizemos que a natureza está sorrindo. Este mundo, esta vida, é uma experiência magnífica.

Estávamos falando há pouco sobre os jovens. É importante fazer com que eles saibam que também nos fazem sorrir. Eles são uma grande dádiva para nós e têm uma vida maravilhosa pela frente. Mas também devem se conscientizar de que, se quiserem mudar algo, devem dar início a essa transformação. De qualquer forma, creio que a vida é uma experiência magnífica que devemos desfrutar.

 

Dr. Ikeda: Em um discurso proferido na Universidade de Nairóbi no ano passado (em novembro de 2004), a senhora disse: “Não fiquem sentados apenas reclamando. Quem estão esperando que entre em ação? Vocês é que devem agir.” Estou convicto de que devemos transmitir às pessoas do mundo todo o apelo que a senhora fez naquela ocasião.

Nesse sentido, o que a senhora acha que devemos fazer para solucionar a crise ambiental? Na sua opinião, qual é o passo mais importante que nós, como indivíduos ou grupos, podemos dar?

 

Dra. Maathai: O senhor há pouco citou um comentário meu, segundo o qual servir aos outros é a maior felicidade na vida. Todos os grandes mestres não passaram a vida voltados para si mesmos, ao contrário, dedicaram-se pelo bem dos outros. Creio que servir, dar de si, é uma experiência muito satisfatória. Especialmente quando a pessoa tem dons naturais, é importante compartilhá-los — assim como uma árvore, que compartilha os frutos que produz. É bom partilhar e se voluntariar para servir aos outros.

Os jovens precisam também aprender que podem encontrar satisfação em servir — e que, algumas vezes, a insatisfação que sentem vem do fato de se concentrarem muito em si mesmos.

 

Dr. Ikeda: Essa é uma abordagem muito esclarecedora. Seu estudo da biologia realmente ajudou muito em suas atividades de proteção ambiental, não é mesmo?

 

Dra. Maathai: Sim. Como bióloga, tive o privilégio de aprender como a natureza funciona. A ciência nos incentiva a desenvolvermos o pensamento crítico e a questionarmos — “Por que isso acontece?” e “Como isso funciona?”.

 

Dra. Maathai: A primeira Conferência das Nações Unidas sobre as Mulheres foi realizada no México em 1975. Em meus preparativos para essa atividade, fiz uma pesquisa sobre as necessidades das mulheres quenianas e soube que o que elas mais queriam era água potável para beber, combustível para cozinhar — principalmente lenha — e alimentos cultivados. Percebi que essas questões estavam todas intimamente ligadas à terra. Então compreendi claramente que muitos dos problemas que as comunidades enfrentavam decorriam da degradação ambiental.

Consegui então mobilizar as pessoas, aos poucos, para que mudassem seu próprio ambiente realizando algo para si próprias, em vez de ficarem esperando pelo governo ou pelos líderes comunitários.

Percebi também que, com muita frequência, as pessoas não compreendiam que havia uma relação entre a degradação ambiental e as necessidades da sociedade, e assim comecei com um programa educacional para ajudar as pessoas a entenderem isto. À medida que mais e mais pessoas compreendiam essa relação com clareza, ofereciam-se para colaborar e participar de nosso movimento.

 

Dr. Ikeda: O resultado foi um grande número de mulheres trabalhando juntas, criando uma força nova e surpreendente voltada para a ação positiva.

Quando a Dra. Maathai deixou o prédio, jovens agitando bandeiras do Quênia proporcionaram a essa incansável defensora do meio ambiente, dos direitos humanos e da paz uma calorosa despedida. Ao se despedir de sua convidada, o Dr. Ikeda disse que nunca se esqueceria daquele encontro e que ansiava por vê-la novamente. Também expressou seus melhores votos de contínuo sucesso.

Para ler a versão em inglês, clique aqui

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Com sede em Manaus (AM), o Instituto Soka Amazônia se destaca por suas ações em defesa da floresta, com foco na educação ambiental e no engajamento comunitário.

Entre suas iniciativas estão projetos educativos com estudantes, que promovem o contato direto com a natureza por meio de trilhas ecológicas, oficinas e campanhas de sensibilização. A valorização da cultura amazônica também é central, integrando saberes tradicionais como ferramentas para a preservação ambiental.

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