Diálogo e educação se encontram para pensar novos caminhos para a sustentabilidade
Amazonian Youth Summit conecta instituições, especialistas e diferentes áreas do conhecimento em Manaus e propõe formação humana, cooperação e consciência ambiental como caminhos para enfrentar os desafios contemporâneos
Discutir o futuro do planeta a partir da Amazônia é olhar para um território onde algumas das questões mais urgentes do nosso tempo se encontram. Mudanças climáticas, conservação da biodiversidade, desenvolvimento econômico, desigualdades e valorização dos conhecimentos locais são desafios vividos na região, mas com implicações que ultrapassam suas fronteiras.
É também reconhecer que as respostas para essas questões passam pelas pessoas que vivem, estudam, pesquisam e constroem suas trajetórias nesse território. Mais do que um patrimônio ambiental de importância global, a Amazônia é um espaço de conhecimento, de diversidade humana e de experiências que podem contribuir para a construção de novas formas de relação entre sociedade e natureza.
Foi a partir dessa perspectiva que Manaus se tornou ponto de encontro de instituições, especialistas e organizações nacionais e internacionais durante o Amazonian Youth Summit promovido pelo Instituto Soka Amazônia nos dias 31 de agosto e 1º de setembro.
Mais do que trazer para a Amazônia uma discussão global sobre sustentabilidade, o encontro propõe também um movimento em sentido inverso: pensar desafios globais a partir da Amazônia, de suas experiências, de sua diversidade e das possibilidades de transformação que nascem do território.
A programação do primeiro dia reuniu representantes do Instituto Soka Amazônia (ISA), Soka Gakkai Internacional (SGI), Carta da Terra Internacional, Clube de Roma, Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Brasil Soka Gakkai Internacional (BSGI), além de instituições parceiras, organizações da sociedade civil, especialistas e convidados. Em comum, diferentes perspectivas sobre educação, sustentabilidade, cidadania global, conservação ambiental e formação humana.
O encontro entre essas diferentes experiências parte de uma questão que atravessa todo o Summit: como criar condições para que novas gerações estejam preparadas para participar da construção de respostas aos desafios socioambientais e, ao mesmo tempo, possam encontrar espaços para agir sobre eles?
Para Luciano Gonçalves do Nascimento, presidente do Instituto Soka Amazônia, essa construção passa por desenvolver uma consciência mais profunda sobre a relação entre pessoas e meio ambiente.
“Um dos princípios do Dr. Ikeda é que precisamos criar essa consciência da coexistência entre a pessoa e o meio ambiente. Nós não vivemos sem o meio ambiente, e as pessoas interferem no meio ambiente. Então, a pessoa precisa ter consciência de respeitar o meio ambiente e viver em coexistência harmoniosa,” destaca.
A relação entre Amazônia e desafios globais também se torna mais concreta quando observada a partir das comunidades que vivem na região. Luciano destaca que impactos ambientais não se distribuem de maneira uniforme e que populações próximas aos rios, por exemplo, estão entre aquelas que sentem diretamente as consequências de comportamentos adotados nos centros urbanos.
“A Amazônia tem essa simbologia de ser a casa da vida”, afirma. “Quando trazemos o olhar de todo o mundo para este local, percebemos que o nosso comportamento na cidade agride o meio ambiente, e quem sente esse impacto maior são as pessoas que moram próximas ao rio,” explica.
Nesse sentido, a discussão sobre sustentabilidade deixa de ser apenas uma reflexão sobre a proteção de ecossistemas e passa a envolver também responsabilidade social, consciência individual e compromisso coletivo.
É uma perspectiva que ajuda a explicar por que o Instituto Soka Amazônia escolheu reunir, em um mesmo espaço, diferentes atores interessados em pensar o presente e o futuro da região.
Quando o território também ensina
Para João Carlos, diretor ambiental do Instituto Soka Amazônia, essa integração está na própria maneira como a instituição entende sua missão.
“Em todas as nossas atividades, respiramos educação ambiental. Toda a reserva respira educação. Tudo aqui é uma sala de aula,” reforça o diretor.
A frase resume uma concepção que amplia o sentido tradicional da educação. A floresta, segundo essa perspectiva, não é apenas cenário para uma aula: ela própria produz experiências e conhecimentos.
“Nosso modelo de educação ambiental não é apenas falar ou discursar”, explica João Carlos, para quem é preciso “trazer pessoas para que, juntos, de mãos dadas, possamos ir à frente”.
A Academia Ambiental, programa do Instituto voltado à educação socioambiental, materializa essa proposta. As atividades aproximam estudantes da rede pública de Manaus de temas como biodiversidade, sustentabilidade e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), combinando ações realizadas nas escolas com vivências dentro da reserva.
A experiência inclui trilhas, contato com sementes e espécies amazônicas, atividades sobre a importância das abelhas, visitas a espaços de pesquisa e conservação e ações práticas de plantio e semeadura. A proposta é fazer com que os conteúdos discutidos em sala ganhem dimensão concreta e que o contato com a floresta produza uma relação diferente com o ambiente.
Uma agenda que aproxima diferentes gerações e conhecimentos
O caráter colaborativo do Summit se estende às instituições internacionais presentes no encontro.
A Carta da Terra Internacional trouxe para a programação uma reflexão sobre a importância de referências éticas diante da crise ambiental. A organização trabalha a partir de um documento construído por meio de um processo multicultural e multissetorial, que reuniu pessoas e grupos de diferentes regiões do mundo e que foi lançado no ano 2000.
Para Miriam Vilela, presidente executiva da Carta da Terra Internacional pode funcionar como uma referência para escolhas individuais e institucionais.
“A Carta da Terra é um instrumento que articula uma visão de mundo centrada na vida. Ela promove uma narrativa sobre a nossa interdependência e interconexão com a comunidade de vida”, destacou.
A organização propõe quatro grandes eixos: respeito e cuidado com a comunidade da vida; integridade ecológica; justiça social e econômica; e democracia, não violência e paz.
Mais do que um documento orientador, Miriam define a Carta da Terra como uma “bússola ética”, capaz de apoiar processos de reflexão e tomada de decisão.
“É um instrumento de diálogo, mas também um instrumento de educação que nos ajuda a ter uma maior consciência sobre o nosso papel em contribuir com o bem comum”
A relação entre a Carta da Terra Internacional e a Soka Gakkai Internacional também tem uma trajetória anterior ao Summit. Segundo Miriam, a SGI participou de processos de consulta realizados durante a elaboração do documento, e Daisaku Ikeda contribuiu com ideias que dialogam com princípios presentes em sua formulação.
Em 2023, Carta da Terra Internacional e Instituto Soka Amazônia firmaram um acordo de colaboração para ampliar o uso do documento nos processos de educação ambiental da instituição.
A parceria ganha novo significado quando relacionada ao trabalho com as novas gerações.
“A Carta da Terra Internacional tem um foco muito forte em envolver jovens, tentando alimentar essa visão de mundo centrada na vida, no respeito, no cuidado e na responsabilidade com o bem comum. E a SGI, o Instituto Soka, também têm esse interesse em trabalhar com os jovens. É natural que a gente possa unir esforços com esse Summit”, ressalta.
A convergência entre educação e consciência ética aparece novamente quando Miriam aponta o que considera um dos grandes desafios contemporâneos.
“Nosso grande desafio é procurar diminuir o nosso analfabetismo ecológico e o nosso analfabetismo ético, porque temos cada vez mais pessoas com acesso à educação, mas não necessariamente alfabetizadas do ponto de vista ecológico ou ético”, destaca.
A observação amplia a discussão sobre o papel da educação ambiental. Conhecer a crise climática ou saber identificar os impactos da degradação ambiental não significa, necessariamente, compreender o próprio lugar dentro desse sistema de relações.
A consciência, nesse caso, passa a ser entendida como uma forma de aprendizagem.
Os limites de um modelo e a necessidade de uma transformação
A participação do Clube de Roma adicionou outra camada a essa discussão. Ao apresentar reflexões relacionadas à trajetória do grupo e ao relatório Limites do Crescimento, Silvia Zimmermann del Castillo, representante do Clube de Roma, recuperou um debate que ganhou força ainda no século 20: como conciliar produção, consumo e desenvolvimento em um planeta com recursos finitos.
A ideia permanece especialmente atual em um momento em que os efeitos das mudanças climáticas colocam em questão modelos de crescimento e padrões de consumo.
A partir dessa reflexão, Silvia destacou que a crise contemporânea não pode ser tratada como um conjunto de problemas isolados. Questões ambientais, econômicas e sociais se conectam e precisam ser analisadas de forma sistêmica.
Mas a reflexão foi além das estruturas econômicas e dos limites materiais do planeta.
Ao recuperar experiências de diálogo entre diferentes pensadores, Silvia chamou atenção para uma dimensão que, segundo ela, precisa voltar ao centro do debate: a revolução humana.
“Não se pode mudar ou curar a crise que o planeta e a humanidade atravessam apenas pela tecnologia ou apenas pela ciência. […] É necessário desenvolver uma dimensão que precisa ser recuperada, que é a dimensão humana”.
A colocação encontra um ponto de contato direto com o propósito do Instituto Soka Amazônia e com a filosofia de seu fundador, Daisaku Ikeda.
Em vez de compreender a sustentabilidade apenas como um conjunto de técnicas, políticas ou tecnologias, a perspectiva apresentada durante o encontro considera também os valores e escolhas que orientam a relação das pessoas com a sociedade e com o ambiente.
É uma mudança importante na forma de fazer a pergunta. Não basta pensar apenas em quais soluções o mundo precisa. É preciso perguntar também que pessoas serão capazes de construir, aplicar e sustentar essas soluções.
Educação, consciência e responsabilidade compartilhada
Ao final do primeiro dia, diferentes vozes chegaram a conclusões que, embora formuladas a partir de experiências diversas, apontam para uma direção semelhante.
A sustentabilidade não pode ser tratada apenas como uma agenda ambiental. Ela exige uma visão mais ampla, capaz de conectar educação, ética, ciência e participação social, porque responder aos desafios do planeta passa tanto pelo desenvolvimento de soluções quanto pela forma como as pessoas compreendem sua responsabilidade e seu papel nessa transformação.
A reflexão da Carta da Terra sobre o “analfabetismo ecológico” chama atenção para a necessidade de ampliar a compreensão sobre nossa interdependência com o mundo.
O Clube de Roma acrescenta a necessidade de questionar modelos de desenvolvimento que desconsideram os limites do planeta.
A experiência do Instituto Soka Amazônia mostra como conservação e educação podem acontecer juntas, transformando a floresta em espaço de aprendizagem.
E a filosofia de Daisaku Ikeda reforça a importância da educação e do diálogo como caminhos para a revolução humana.
Em diferentes linguagens, todos esses elementos convergem para um mesmo ponto: não haverá transformação ambiental duradoura sem transformação na maneira como as pessoas compreendem seu papel no mundo.
Para Luciano Gonçalves, esse processo começa pela sensibilização.
O presidente do Instituto ressalta que um estudante que passa pela Academia Ambiental não precisa guardar apenas o conteúdo aprendido durante uma visita. Ele pode levar a experiência para casa, compartilhá-la com a família e, a partir daí, ampliar o alcance daquele conhecimento.
“A convivência entre o estudante, a família e a sociedade é que vai contribuir para uma mudança no comportamento das pessoas. Acreditamos que, ao sensibilizar as pessoas para que tenham um olhar de respeito à vida e à natureza, elas poderão contribuir para uma melhor convivência entre sociedade, família e governo”.
É uma concepção de transformação que não depende de uma única instituição ou de uma única ação. Ela acontece quando diferentes pessoas passam a reconhecer sua responsabilidade e encontram meios de agir a partir dela.
















